Era uma vez uma casinha
em forma de coração.
No sótão, a janelinha,
no térreo, o velho portão
que o dono, bem pouco esperto,
teimava em deixar aberto.

Entrou gente mau caráter
que nem mesmo merecia.
Levaram obras de arte,
roubaram o que havia.
Pisaram naquelas flores
tão lindas, tão multicores.

Rabiscaram as paredes,
sujaram toda a lareira,
cuspiram pelos tapetes.
Cortaram a macieira
para instalar um chiqueiro
ao lado do abacateiro.

O dono, costas vergadas,
recolheu cristais quebrados,
pérolas esparramadas
e quadros esburacados.
Cerrou o velho portão
guardando a chave na mão.

Na lareira... o fogo aceso.
Chorou tudo o que podia
de raiva, de menosprezo
exaurindo o que sentia.
Deixou a casa bonita
e converteu-se em eremita.

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Era uma vez uma casinha
em forma de coração.
No sótão a janelinha,
no térreo o velho portão
que o dono, bem mais esperto,
nunca mais deixou aberto.