Fui como a flor
que vingou por acaso.
Como o acaso não existe,
não tinha razão de ser.
Fui como a gota de orvalho
sem planta para orvalhar.
Diluí-me pela terra,
orvalhando não sabia o quê.
Fui a rosa fecundada,
gerando tantas outras,
querendo formar jardim.
Mas à medida em que elas cresciam,
lá se iam
e se afastavam de mim.
Fui como o raio de sol
tentando aquecer alguém.
Mas as nuvens zombeteiras,
brincando de esconde-esconde,
me impediram isso também.
Cansada de procurar,
exausta de não encontrar
quem acreditasse em mim,
fui aos poucos me calando,
cada vez mais me afastando
do vozerio aí de fora.
Palavras fúteis, inúteis
ao meu momento de agora.
E no profundo silêncio
do meu "eu",
de repente fui achar
tudo aquilo que era meu.
Estava lá meu jardim
com todas aquelas flores
que um dia germinei,
umidecidas de amores
do orvalho que esparramei.
O raio de sol brilhava
com tamanha intensidade
que quase me cegava,
tão grande sua claridade.
E num ato de coragem,
nunca antes tido então,
desnudei-me de meus rótulos,
bengalas joguei ao chão.
Escancarei as janelas,
vislumbrando diante delas
a conquista do sem fim!
O infinito... a eternidade...
e meu Deus dentro de mim.