A meu marido

que insiste em permanecer tão forte como no dia em que nossos olhos encontraram-se, pela vez primeira, em "Copacabana Beach" e pressentiram que estaríamos irremediavelmente perdidos, sucumbidos, apesar das brigas, apesar das mágoas, das raivas, das decepções, do "eu vou-me embora", "pode ir se quiser", mas depois do "fique, por favor, eu a amo ainda", e desse "ainda" que insiste em permanecer "ainda", embora a raiva pela minha toalha de banho sempre molhada (você nunca usa a sua), do seu carro cheio de papelada, amostras de remédios e outros bagulhos (que não têm nada a ver),  justo no lugar onde me sento, além das outras coisas espalhadas pela casa na sua eterna desordem; sua falta de horário e minhas implicâncias pelos seus mil compromissos; as suas exigências (eu de plantão permanente), correndo atrás de suas chaves, sua carteira de dinheiro, seus talões de cheque (nunca sabe onde os deixou), das nossas diferenças (elas são enormes), das nossas semelhanças (bem grandes também), das competições, inseguranças, ciumeiras, bobeiras, infantilidade e "otras cositas mas..."ameaças inúteis: não mais acreditadas; promessas inúteis: não mais esperadas desse amor que teima em se manter em pé apesar de tudo, de minhas ironias: "é melhor ficar, quem fará meu imposto de renda?" do seu descaso pelas minhas realizações, pelos meus sucessos (ciúme ou insegurança?), depois a surpresa pelos seus agradecimentos em público ao meu companheirismo sempre presente e pelo seu reconhecimento aos meus valores (onde a verdade?).

Por que, por que persiste esse amor ainda?

Porque teve de tudo...menos monotonia.

Pelos enormes momentos de ternura, jamais esquecidos.

Porque, para sua desgraça, eu o amo ainda e, para minha desgraça, eu sei que você me ama ainda. Mas, será mesmo uma desgraça "esse amor ainda?"

Não, enquanto ele permanecer ainda...