No princípio foi o espanto, o susto ao constatar que seriam capazes. Depois veio a raiva e a revolta que demoraram a passar, mas passaram, dando lugar a um sentimento que, nunca então, eu havia sentido: o desprezo. É horrível o desprezo. É uma espécie de enjôo de espírito, de náusea espiritual. Faz mal.
          Muitos entraram no meu íntimo envoltos pelo desprezo. Passei a trabalhá-lo, pois não conseguia conviver com ele, como não conseguia conviver com a inveja dos medíocres, dos fracos e dos falsos.
          Comecei por me afastar de tudo e de todos, como
auto-defesa, para me resguardar.
          Sem querer fui encontrar, pouco a pouco, o que passei a chamar de "meu refúgio" e percebi que obtinha nele, uma certa harmonia, uma certa paz. Quando me dei conta, o desprezo também havia passado, restando apenas o "nada" o "não me importo mais..."
          Continuo no meu refúgio, não mais por defesa, pois cresci e me tornei mais forte, mas pelo bem que ele me faz, principalmente nos mergulhos que dou para dentro de mim mesma e que chamo de "diálogos comigo mesma". Eles me têm levado a um enorme aprendizado.
          Dialoguei, tempos atrás, a respeito do perdão e aprendi que ele independe do acerto que tenhamos com os outros, mas do acerto que tenhamos com nós mesmos. De estarmos limpos por dentro. Assim estou.
          Meu refúgio é meu lugar de refazimento, onde encontro as respostas para os meus "por quês."
          Percebi, então, que eu havia dado


A Volta por Cima

Extrapolei os sonhos!
Vivenciei as mágoas.
Convivi com fracos,
suportei os falsos.
Me mantive em pé,
mesmo com pedras
me atingindo em cheio.
Varri da alma
a revolta ignóbil,
o desprezo inútil,
a tristeza vã,
a descrença falsa.
Reabri meu coração à vida.
Deixei reflorescer ternura.
Olhei em volta e para o céu sem fim...
Me conformei com o mundo,
me conformei com a vida.
A vida e o mundo
que mereci pra mim.
Obrigada, Senhor, pela volta
que a vida me fez dar.
Aprendi a amar-te, sem mandamentos,
pela simples razão de te amar.