Numa dessas, em que a coceira na mão me obrigava a escrever (como diria Machado de Assis), fiquei meditando longamente sobre o amor. Por que será que é tão complicado esse tal de amor? Se todo homem quer amar e ser amado, qual o grilo? (como diria André). Quantas vezes o amor se transformou em ódio, quantas? Tantas!
           Nisso (imaginem meu susto), apareceram à minha frente o amor e o ódio, um de cada lado.
           - Bem -disse o ódio muito senhor de si- você nos chamou, eis-nos aqui.
           - Eu???... -balbuciei atônita-
           - É... -respondeu prepotente o ódio- atraiu-nos pela força de seu pensamento.
           - Bom...-tentei falar, quase murmurando- foi de maneira inconsciente. Não queria...
           - Inconsciente ou não, aqui estamos.
           O amor parecia perturbado (seria impressão?).
           - Já que ela não quer falar conosco -manifestou-se- é melhor irmos embora (teria sido a melhor coisa).
           - Isso mesmo -aproveitei a deixa- é melhor ir cada qual para seu lado. Eu preciso traba...
           - Não e não -interrompeu-me o ódio, seco e grosso- há muito esperava por esta oportunidade. Vamos em frente.
           - Não temos nada em comum, não sei para que este papo -disse o amor, com uma certa timidez (ou estaria enganada...).
           - Dissimulado!!! Está com medo de ser desmascarado? -gritou o ódio-
           O amor ficou vermelho? (ou era impressão minha...).
           - Todos me conhecem e me buscam a vida toda -disse o amor mais seguro de si-
           - Ha! Ha! Ha! Ha! -gargalhou o ódio irônico (que susto!) - a mim sim, me conhecem. Mas a você?
           Desta vez tive certeza. O amor ficou vermelho (seria de raiva?), Meu Deus! Eu estava pirando! (como diria André).
           - Olhe aqui ó, seu Zé bonitinho, você vem com essa panca de bonzinho, vai se aproximando dos outros sem pedir licença, se instala e, depois, faz deles o que bem entende. E ainda tem fama de maravilhoso!
           - E você -retrucou o amor perdendo a paciência (eu não podia acreditar no que estava acontecendo), você vem com sua força brutal destruindo a tudo e a todos.
           - Pelo menos ataco de frente. Meu jogo é aberto. Chego e pronto. Não engano ninguém e nem me confundem com outro sentimento. Ao passo que você, às vezes, vem tão disfarçado que as pessoas ficam se perguntando: "será que é amor? será que é amor?".
           O ódio fez um trejeito tão cômico para falar essa última frase que ficou até engraçado.
           - Eu trago a felicidade para os homens -retrucou o amor com voz trêmula-
           - Ha!Ha!Ha!Ha! -o ódio se jogou ao chão gargalhando como um louco (por falar nisso, qual é mesmo o telefone de meu analista?).
           - Olhe aqui ó, seu Zé encantado, você fez mal a mais pessoas do que eu.
           - Eu??? -exclamou o amor totalmente vermelho- Todos me querem, todos me buscam. Já fui imortalizado pelos maiores artistas do mundo inteiro (estaria o amor assim, tão envaidecido? Não podia ser...).
           - Quantas vezes fui chamado, às pressas, por pessoas que você deixou assim ó, assim ó, feito trapinho -o ódio imitava a pessoa feito trapinho (vocês não estão acreditando, não é? Nem eu...).
           - A culpa não é minha, elas é que não sabem amar -disse o amor quase chorando-
           Estaria o amor com sentimento de culpa? Meu Deus! Que loucura! (como diria meu amigo Bruno).
           - O homem -disse o ódio- quer me banir da terra. Para que eu acabe, é preciso que você se mande também.
           Aproveitei a deixa e retruquei rapidinho, antes que o ódio me interrompesse outra vez.
           - Há quem diga -falei- que o ódio é o amor desequilibrado.
           O ódio, num acesso de fúria, esmurrou tanto a cabeça que pensei que fosse se matar (quem não queria, heim?).
            - Talvez...-respondeu o amor meio vago- talvez...(o que ele queria dizer com esse "talvez?").
            - Se assim for -prossegui não me importando mais com os ataques de raiva do ódio nem se eu havia pirado ou não- quando o amor deixar de ser um sentimento carregado de emoções, transformando-se num sentimento harmônico, não haverá mais ódio.
            Pra quê!!! O ódio saiu como um furacão (não o branco), batendo todas as portas (se o negócio é para pirar, vamos pirar de vez).
            O amor ficou ainda algum tempo meditando. Depois, antes de se retirar, deu-me um tapinha nas costas e concluiu suspirando:
            - Você ainda vai me conhecer melhor.
            - Tomara! Tomara! -respondi sem muita convicção (como vêem, já me conformei com meu estado de alucinação).
            Nisso, o telefone tocou. Era minha amiga Wilma. Eu a conheço muito bem e sei que sofreu uma grande desilusão de amor.
            - O que você acha do amor? -perguntei-
            Pausa...pausa...ainda pausa...
            - Escreva aí -respondeu despois-
            Redação: O Amor
            Não vou falar sobre o amor.
            Tanta gente já falou!
            Uns sorrindo,
            outros cantando,
            muitos chorando.
            E eu? Nem sei...
            Desligou o telefone com uma bela gargalhada.
            Ainda bem que não sou só eu a pirada (como diria André).

(Conto Premiado)