DOR ALHEIA

Pilar Reynes da Silva Casagrande

Que seja intensa a tua dor imaginária,
que lateje em todas as fendas da tua alma,
que te de a cor lívida dos flagelados e encha
o teu cérebro de escuridão, como uma noite total.
Que ela seja o horror do teu suplício,
a prova da tua resistência,
o heroísmo do teu gesto alucinante,
ainda, assim, não saberás avaliar a dor alheia.
Que a tua dor imaginária
seja a expressão do irremediável,
seja a dormência da tua sensibilidade
seja a humilhação atroz de todos os teus desejos,
ainda, assim, não saberás avaliar a dor alheia.
Quando, porém, sentires o que os outros já sentiram,
aquela dor viva, aquela dor real, aquela que santifica
a dor em que se bebe, trêmulo, gota a gota,
a essência humana da derrota e do aniquilamento,
aí, sim, meu irmão, saberás avaliar a dor alheia.