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CÂNTICO I

Ely Vieitez Lanes
(Membro da Academia Ribeirãopretana de Letras
e do Projeto Cultural SUL)

De manhã, quando o alvo linho dos lençóis
são doces mãos de malva perfumada
a envolver os corpos saciados
vejo no teu rosto o amanhecer da vida
do prazer recebido
como oferenda / prêmio / descoberta.

Corremos nus, pelas níveas praias
com as espumas beijando-nos os pés
magos da volúpia, do amor encontrado
e, reacendido o desejo, deitamo-nos
sobre lírios, violetas e gloxínias
saudados pelo perfume intenso
os corpos doirados do pólen...

À tarde, frutas doces, tenras e coloridas
nos inebriam
com o néctar macio, dulçuroso
nos lábios túrgidos
de pura sensual alegria!
Suas mãos mágicas erguem-me os seios
beijando-os como pomos maduros,
caminhos conhecidos por sua boca encantada...
Comemos juntos, como crianças felizes,
polpudas e veludosas uvas, em cristalizado rubi!

A noite chega com seus sortilégios,
as estrelas emudecem, pálidas de frenesi,
a brisa cicia murmúrios
o quarto é templo sagrado
com os rituais sofisticados
o leito, altar em oblação!
E, de novo, após o cântico de amor
dos corpos, instrumentos sensíveis
às cordas dos gozos mais íntimos
dormimos abraçados,
lianas vivas, mornas, entrelaçadas.
Todo o mistério do mundo se explica
na alegria e riqueza dos deuses da Criação!

Do livro "Cânticos De Amor Ao Amado"