Luis Vaz de Camões - O caolho.

Roberto Bergamo

De Camões canta encantado, demente da própria loucura. Se cura da dor que lhe corta...Quem se importa?
Conforta saber que ja` passa, na mente da raça demente, loucura maior dominante...Quanta secura.
Segura da dor tão somente, como a própria dor que lhe fere,qual veneno de serpente...Quanta loucura
Confere os passos que anda com seu único olho restante.Eloqüente, ditoso.falante... Quem lhe conforta?
Caolho so` vê com um olho, comenta oque viu fraccionado: apaixonante, apaixonado... Quem lhe suporta?
Caravelas, mastros,heróis,ego inflado....Piadas de Português? Quem nunca as fez? E` fato. E`destino. E`fado.
Conto a minha desta vez.
Cimitarras tilintando, bramindo, cortando, ensangüentando o Mouro que passa ...Ate quando?
Com seu único olho olha ... E com as mãos Camões escreve.Descreve oque vê nas batalhas.
Santo,heroi ou canalha? A sua pena nao falha.
Raras rimas, métricas medidas,sonetos sonoros. Épico, heróico e caolho. Eis nosso homem.
A fome lhe consome, o medo lhe atormenta. Escreve , reescreve não se contenta.
Perfeição busca. Mesmo se lhe batem...Escreve.
Se lhe empoe celibato forçado. Não de amor destronado, mas de amores nunca havidos.
De amor se ama a Pátria enquanto de outro melhor se carece.Por isso escreve...
Raras rimas, métricas medidas....Obra prima e`apanágio de mau amado...e` destino e` fado.
Vaga mundo, vagabundo,endividado e naufragado... Piadas de português? Quem nunca as fez.
Se em Celta se perde um olho... do céu cai outro outra vez.
«Aqui jaz Luís de Camões, Príncipe dos Poetas de seu tempo. Viveu pobre e miseravelmente, e assi morreu.»
E a lapide assim se fez:
Piadas de Portugues ...quem nunca as fez?
Conte a sua doutra vez.